Acesso em 26/04/12 por volta das 16h00
quinta-feira, 26 de abril de 2012
segunda-feira, 23 de abril de 2012
Para os 1os anos de Língua Portuguesa
O Homem trocado
O homem acorda da anestesia e olha em volta. Ainda está na sala de
recuperação. Há uma enfermeira do seu lado. Ele pergunta se foi tudo bem.
- Tudo perfeito - diz a enfermeira, sorrindo.
- Eu estava com medo desta operação...
- Por quê? Não havia risco nenhum.
- Comigo, sempre há risco. Minha vida tem sido uma série de enganos...
E conta que os enganos começaram com seu nascimento. Houve uma troca
de bebês no berçário e ele foi criado até os dez anos por um casal de
orientais, que nunca entenderam o fato de terem um filho claro com olhos
redondos. Descoberto o erro, ele fora viver com seus verdadeiros pais. Ou
com sua verdadeira mãe, pois o pai abandonara a mulher depois que esta não
soubera explicar o nascimento de um bebê chinês.
- E o meu nome? Outro engano.
- Seu nome não é Lírio?
- Era para ser Lauro. Se enganaram no cartório e...
Os enganos se sucediam. Na escola, vivia recebendo castigo pelo que não
fazia. Fizera o vestibular com sucesso, mas não conseguira entrar na
universidade. O computador se enganara, seu nome não apareceu na lista.
- Há anos que a minha conta do telefone vem com cifras incríveis. No mês
passado tive que pagar mais de R$ 3 mil.
- O senhor não faz chamadas interurbanas?
- Eu não tenho telefone!
Conhecera sua mulher por engano. Ela o confundira com outro. Não foram
felizes.
- Por quê?
- Ela me enganava.
Fora preso por engano. Várias vezes. Recebia intimações para pagar dívidas
que não fazia. Até tivera uma breve, louca alegria, quando ouvira o médico
dizer:
- O senhor está desenganado.
Mas também fora um engano do médico. Não era tão grave assim. Uma
simples apendicite.
- Se você diz que a operação foi bem...
A enfermeira parou de sorrir.
- Apendicite? - perguntou, hesitante.
- É. A operação era para tirar o apêndice.
- Não era para trocar de sexo?
Luis Fernando Veríssimo
Fonte:http://pensador.uol.com.br/frase/MjMxNDk5/ acesso em 23/04/2012 às 22h38
quinta-feira, 19 de abril de 2012
1os A,B - Língua Portuguesa
Aula de hoje: 19/04/2012 - Atividade para Casa
- Procurem no dicionário o significado das palavras desconhecidas presentes no conto "A Igreja do Diabo"(Verifiquem que há sugestão de algumas, as quais encontram-se destacadas no texto).
- Analise o conto citado na questão anterior e aponte os "Elementos da Narrativa" presentes no mesmo.
- Pesquise sobre o escritor "Machado de Assis"...
As atividades serão corrigidas em sala e devem estar no caderno.
Bjus
Kátia
quarta-feira, 18 de abril de 2012
8 anos A,B - Alimentos Trangênicos
O que são?
Alimentos Geneticamente Modificados: são alimentos criados em laboratórios com a utilização de genes (parte do código genético) de espécies diferentes de animais, vegetais ou micróbios.
Organismos Geneticamente Modificados: são os organismos que sofreram alteração no seu código genético por métodos ou meios que não ocorrem naturalmente.
Engenharia Genética: ciência responsável pela manipulação das informações contidas no código genético, que comanda todas as funções da célula. Esse código é retirado da célula viva e manipulado fora dela, modificando a sua estrutura (modificações genéticas).
Alimentos Geneticamente Modificados: são alimentos criados em laboratórios com a utilização de genes (parte do código genético) de espécies diferentes de animais, vegetais ou micróbios.
Organismos Geneticamente Modificados: são os organismos que sofreram alteração no seu código genético por métodos ou meios que não ocorrem naturalmente.
Engenharia Genética: ciência responsável pela manipulação das informações contidas no código genético, que comanda todas as funções da célula. Esse código é retirado da célula viva e manipulado fora dela, modificando a sua estrutura (modificações genéticas).
Com o aprimoramento e desenvolvimento das técnicas de obtenção de organismos geneticamente modificados e o aumento da sua utilização, surgiram então, dois novos termos para o nosso vocabulário: biotecnologia e biossegurança.
Biotecnologia é o processo tecnológico que permite a utilização de material biológico para fins industriais.
A biossegurança é a ciência responsável por controlar e minimizar os riscos da utilização de diferentes tecnologias em laboratórios ou quando aplicadas ao meio ambiente.
Pontos positivos dos alimentos transgênicos
- Aumento da produção de alimentos;
- Melhoria do conteúdo nutricional, desenvolvimento de nutricênicos (alimentos que teriam fins terapêuticos);
- Maior resistência e durabilidade na estocagem e armazenamento
Pontos negativos dos alimentos transgênicos
- Melhoria do conteúdo nutricional, desenvolvimento de nutricênicos (alimentos que teriam fins terapêuticos);
- Maior resistência e durabilidade na estocagem e armazenamento
Pontos negativos dos alimentos transgênicos
- Aumento das reações alérgicas;
- As plantas que não sofreram modificação genética podem ser eliminadas pelo processo de seleção natural, pois, as transgênicas possuem maior resistência às pragas e pesticidas;
- Aumento da resistência aos pesticidas e gerando maior consumo deste tipo de produto;
- Apesar de eliminar pragas prejudiciais à plantação, o cultivo de plantas transgênicas pode, também, matar populações benéficas como abelhas, minhocas e outros animais e espécies de plantas.
- As plantas que não sofreram modificação genética podem ser eliminadas pelo processo de seleção natural, pois, as transgênicas possuem maior resistência às pragas e pesticidas;
- Aumento da resistência aos pesticidas e gerando maior consumo deste tipo de produto;
- Apesar de eliminar pragas prejudiciais à plantação, o cultivo de plantas transgênicas pode, também, matar populações benéficas como abelhas, minhocas e outros animais e espécies de plantas.
Alguns países que cultivam alimentos transgênicos
Estados Unidos: melão, soja, tomate, algodão, batata, canola, milho.
União Europeia: tomate, canola, soja, algodão.
Argentina: soja, milho, algodão.
União Europeia: tomate, canola, soja, algodão.
Argentina: soja, milho, algodão.
Os críticos dos alimentos geneticamente alterados dizem que a ciência não tem controle total sobre o funcionamento dos genes. Para eles, as pesquisas devem ser aprofundadas antes que os novos produtos sejam liberados. No caso da soja modificada, existe o temor de que a substância EPSPS provoque efeitos inesperados no organismo dos consumidores, como alergias ou outro tipo de doença. Mesmo que o gene tenha sido preparado em laboratório para funcionar apenas nas folhas, e não nos grãos – a parte comestível da planta –, não há como garantir que eles atuarão da forma programada.
Sites Relacionados:http://www1.uol.com.br/cyberdiet/colunas/010202_nut_alimentotransgenico.htm
Fonte: http://www.algosobre.com.br/biologia/alimentos-transgenicos.html cesso em 18/04/2012 às 21h15.
Segue uma sugestão para aprofundamento de um dos temas tratados em aula hoje (18/04/2012):
"Alimentos Transgênicos"
Acesso em 18/04/2012 às 21h10
Clicar em INICIAR APRESENTAÇÃO
terça-feira, 17 de abril de 2012
A Igreja do Diabo - 1os anos, Língua Portuguesa
Machado
de Assis
A
IGREJA DO DIABO
CAPÍTULO
I
DE
UMA IDÉIA MIRÍFICA
Conta
um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a idéia de
fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se
humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem
regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos
remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada
regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio
eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.
-
Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário
contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas
prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo
será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E
depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja
será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos
de afirmar; há só um de negar tudo.
Dizendo
isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e
varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a idéia,
e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse
consigo: - Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que
abalou todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.
II
ENTRE
DEUS E O DIABO
Deus
recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os serafins que engrinaldavam
o recém-chegado, detiveram-no logo, e o Diabo deixou-se estar à entrada com os
olhos no Senhor.
-
Que me queres tu? perguntou este.
-
Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os
Faustos do século e dos séculos.
-
Explica-te.
-
Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse
bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e
alaúdes o recebam com os mais divinos coros...
-
Sabes o que ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura.
-
Não, mas provavelmente é dos últimos que virão ter convosco. Não tarda muito
que o céu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que é alto. Vou
edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou
cansado da minha desorganização, do meu reinado casual e adventício. É tempo de
obter a vitória final e completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade,
para que me não acuseis de dissimulação... Boa idéia, não vos parece?
-
Vieste dizê-la, não legitimá-la, advertiu o Senhor,
-
Tendes razão, acudiu o Diabo; mas o amor-próprio gosta de ouvir o aplauso dos
mestres. Verdade é que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e uma
tal exigência... Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedra fundamental.
-
Vai
-
Quereis que venha anunciar-vos o remate da obra?
-
Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cansado há tanto da
tua desorganização, só agora pensaste em fundar uma igreja?
O
Diabo sorriu com certo ar de escárnio e triunfo. Tinha alguma idéia cruel no
espírito, algum reparo picante no alforje da memória, qualquer coisa que, nesse
breve instante da eternidade, o fazia crer superior ao próprio Deus. Mas
recolheu o riso, e disse:
-
Só agora concluí uma observação, começada desde alguns séculos, e é que as
virtudes, filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo manto
de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxá-las por
essa franja, e trazê- las todas para minha igreja; atrás delas virão as de seda
pura...
-
Velho retórico! murmurou o Senhor.
-
Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do mundo,
trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os
lenços cheiram aos mesmos cheiros, as pupilas centelham de curiosidade e
devoção entre o livro santo e o bigode do pecado. Vede o ardor, - a
indiferença, ao menos, - com que esse cavalheiro põe em letras públicas os benefícios
que liberalmente espalha, - ou sejam roupas ou botas, ou moedas, ou quaisquer
dessas matérias necessárias à vida... Mas não quero parecer que me detenho em
coisas miúdas; não falo, por exemplo, da placidez com que este juiz de
irmandade, nas procissões, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma
comenda... Vou a negócios mais altos...
Nisto
os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e sono. Miguel e Gabriel fitaram
no Senhor um olhar de súplica, Deus interrompeu o Diabo.
-
Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a um espírito da tua espécie,
replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos
moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade
para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha; todas
as minhas legiões mostram no rosto os sinais vivos do tédio que lhes dás. Esse
mesmo ancião parece enjoado; e sabes tu o que ele fez?
-
Já vos disse que não.
-
Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um naufrágio, ia
salvar-se numa tábua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que se
debatiam já com a morte; deu-lhes a tábua de salvação e mergulhou na
eternidade. Nenhum público: a água e o céu por cima. Onde achas aí a franja de
algodão?
-
Senhor, eu sou, como sabeis, o espírito que nega.
-
Negas esta morte?
-
Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos
outros, para um misantropo, é realmente aborrecê-los...
-
Retórico e sutil! exclamou o Senhor. Vai; vai, funda a tua igreja; chama todas
as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens... Mas, vai!
vai!
Debalde
o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impusera-lhe silêncio; os
serafins, a um sinal divino, encheram o céu com as harmonias de seus cânticos.
O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as asas, e, como um
raio, caiu na terra.
Ill
A
BOA NOVA AOS HOMENS
Uma
vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula beneditina,
como hábito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e
extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do século. Ele prometia
aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites
mais íntimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a
noção que os homens tinham dele e desmentir as histórias que a seu respeito
contavam as velhas beatas.
-
Sim, sou o Diabo, repetia ele; não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos
soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio
da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens.
Vede-me gentil a airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele
nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos
darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo...
Era
assim que falava, a princípio, para excitar o entusiasmo, espertar os
indiferentes, congregar, em suma, as multidões ao pé de si. E elas vieram; e
logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que
podia ser na boca de um espírito de negação. Isso quanto à substância, porque,
acerca da forma, era umas vezes sutil, outras cínica e deslavada.
Clamava
ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram as
naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e
assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com
a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor
defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada:
"Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu"... O mesmo disse da
gula, que produziu as melhores páginas de Rabelais, e muitos bons versos do
Hissope; virtude tão superior, que ninguém se lembra das batalhas de Luculo,
mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. Mas, ainda pondo de
lado essas razões de ordem literária ou histórica, para só mostrar o valor
intrínseco daquela virtude, quem negaria que era muito melhor sentir na boca e
no ventre os bons manjares, em grande cópia, do que os maus bocados, ou a
saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo prometia substituir a vinha do Senhor,
expressão metafórica, pela vinha do Diabo, locução direta e verdadeira, pois
não faltaria nunca aos seus com o fruto das mais belas cepas do mundo. Quanto à
inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de prosperidades
infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio
talento.
As
turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes
de eloqüência, toda a nova ordem de coisas, trocando a noção delas, fazendo
amar as perversas e detestar as sãs.
Nada
mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da fraude.
Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía:
muitos homens são canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem
canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros;
aceitava a todos, menos os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais
rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um casuísta do tempo chegou a
confessar que era um monumento de lógica. A venalidade, disse o Diabo, era o
exercício de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua
casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão
jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes
vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais
do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é
cair no obscuro e no contraditório. Pois não há mulheres que vendem os cabelos?
não pode um homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro
homem anêmico? e o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que
se nega ao caráter, à porção moral do homem? Demonstrando assim o princípio, o
Diabo não se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuniária;
depois, mostrou ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o
exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a
venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente. E descia, e subia,
examinava tudo, retificava tudo. Está claro que combateu o perdão das injúrias
e outras máximas de brandura e cordialidade. Não proibiu formalmente a calúnia
gratuita, mas induziu a exercê-la mediante retribuição, ou pecuniária, ou de
outra espécie; nos casos, porém, em que ela fosse uma expansão imperiosa da
força imaginativa, e nada mais, proibia receber nenhum salário, pois equivalia
a fazer pagar a transpiração. Todas as formas de respeito foram condenadas por
ele, como elementos possíveis de um certo decoro social e pessoal; salva,
todavia, a única exceção do interesse. Mas essa mesma exceção foi logo
eliminada, pela consideração de que o interesse, convertendo o respeito em
simples adulação, era este o sentimento aplicado e não aquele.
Para
rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a
solidariedade humana. Com efeito, o amor do próximo era um obstáculo grave à
nova instituição. Ele mostrou que essa regra era uma simples invenção de
parasitas e negociantes insolváveis; não se devia dar ao próximo senão
indiferença; em alguns casos, ódio ou desprezo. Chegou mesmo à demonstração de
que a noção de próximo era errada, e citava esta frase de um padre de Nápoles,
aquele fino e letrado Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo
regímen: "Leve a breca o próximo! Não há próximo!" A única hipótese
em que ele permitia amar ao próximo era quando se tratasse de amar as damas
alheias, porque essa espécie de amor tinha a particularidade de não ser outra
coisa mais do que o amor do indivíduo a si mesmo. E como alguns discípulos
achassem que uma tal explicação, por metafísica, escapava à compreensão das
turbas, o Diabo recorreu a um apólogo: - Cem pessoas tomam ações de um banco,
para as operações comuns; mas cada acionista não cuida realmente senão nos seus
dividendos: é o que acontece aos adúlteros. Este apólogo foi incluído no livro
da sabedoria.
IV
FRANJAS
E FRANJAS
A
previsão do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de veludo acabava
em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa às urtigas e
vinham alistar-se na igreja nova. Atrás foram chegando as outras, e o tempo
abençoou a instituição. A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; não havia
uma região do globo que não a conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma
raça que não a amasse. O Diabo alçou brados de triunfo.
Um
dia, porém, longos anos depois, notou o Diabo que muitos dos seus fiéis, às
escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem
integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, às ocultas. Certos
glutões recolhiam-se a comer frugalmente três ou quatro vezes por ano,
justamente em dias de preceito católico; muitos avaros davam esmolas, à noite,
ou nas ruas mal povoadas; vários dilapidadores do erário restituíam-lhe
pequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o coração nas
mãos, mas com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando
os outros.
A
descoberta assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais diretamente o mal, e viu
que lavrava muito. Alguns casos eram até incompreensíveis, como o de um
droguista do Levante, que envenenara longamente uma geração inteira, e, com o
produto das drogas socorria os filhos das vítimas. No Cairo achou um perfeito
ladrão de camelos, que tapava a cara para ir às mesquitas. O Diabo deu com ele
à entrada de uma, lançou-lhe em rosto o procedimento; ele negou, dizendo que ia
ali roubar o camelo de um drogomano; roubou-o, com efeito, à vista do Diabo e
foi dá-lo de presente a um muezim, que rezou por ele a Alá. O manuscrito
beneditino cita muitas outra descobertas extraordinárias, entre elas esta, que
desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores apóstolos era um
calabrês, varão de cinqüenta anos, insigne falsificador de documentos, que
possuía uma bela casa na campanha romana, telas, estátuas, biblioteca, etc. Era
a fraude em pessoa; chegava a meter-se na cama para não confessar que estava
são. Pois esse homem, não só não furtava ao jogo, como ainda dava gratificações
aos criados. Tendo angariado a amizade de um cônego, ia todas as semanas
confessar-se com ele, numa capela solitária; e, conquanto não lhe desvendasse
nenhuma das suas ações secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao
levantar-se. O Diabo mal pôde crer tamanha aleivosia. Mas não havia duvidar; o
caso era verdadeiro.
Não
se deteve um instante. O pasmo não lhe deu tempo de refletir, comparar e
concluir do espetáculo presente alguma coisa análoga ao passado. Voou de novo
ao céu, trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular
fenômeno. Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o
repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e
disse:
-
Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda,
como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna
contradição humana.
extraído do site: http://www.biblio.com.br/defaultz.asp?link=http://www.biblio.com.br/conteudo/MachadodeAssis/aigrejadodiabo.htm acesso em 17/4/2012 às 12h36
Outras sugestões de site:
- http://www.gargantadaserpente.com/coral/contos/massis_diabo.shtml (com versão para impressão)
- http://ziggi.uol.com.br/downloads/a-igreja-do-diabo (E-Book)
- http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1903 (baixar/download)
domingo, 15 de abril de 2012
ONU - Organização das Nações Unidas
Sugestão...
http://www.youtube.com/watch?v=HFvETw5XAlQ&feature=fvsr
Acesso em 14/02/2012 às 12h00
1os anos de GEO...Só por curiosidade...Que tipo de projeção foi utilizada no planisfério que encontra-se no centro do emblema/símbolo da ONU????
http://www.youtube.com/watch?v=HFvETw5XAlQ&feature=fvsr
Acesso em 14/02/2012 às 12h00
1os anos de GEO...Só por curiosidade...Que tipo de projeção foi utilizada no planisfério que encontra-se no centro do emblema/símbolo da ONU????
segunda-feira, 9 de abril de 2012
1os anos - Língua Portuguesa
Ouviram do Ipiranga (Pasquale Cipro Neto)
Há algum tempo, o ex-jogador de futebol Sócrates disse que a maior emoção que a carreira lhe proporcionou ocorreu na Copa do Mundo de 1982, mais precisamente durante a execução do Hino Nacional antes da primeira partida do Brasil naquela disputa. “A idéia de representar toda a nação brasileira me deixou emocionado”, disse a Marília Gabriela o memorável doutor Sócrates, que capitaneava aquela Seleção e disputava seu primeiro Mundial.
A maioria dos “boleiros” brasileiros tem água de batata na cabeça; Sócrates, no entanto, é lúcido, inteligente, corajoso, culto. E tem percepção política aguda, acutíssima. Que isso tem que ver com o episódio do Hino? A nefanda ditadura militar fez que tivéssemos (os que, de uma forma ou de outra, lutamos contra ela) uma relação complicada com o Hino. Era inevitável que ele nos soasse como propaganda nazifascista, já que os vendilhões da pátria nos enfiavam goela abaixo o “Ouviram do Ipiranga...” para “legitimar” todas as barbaridades que perpetravam contra a Nação.
Irônica e paradoxalmente, usávamos o Hino como escudo, já que acreditávamos numa lenda da época, segundo a qual ninguém podia ser preso ou apanhar da polícia se estivesse cantando o Hino Nacional. Cantávamo-lo. E apanhávamos. E éramos presos.
Um dos dias mais imbecis e lúgubres de minha vida foi o do juramento à bandeira. Em pleno estádio do Pacaembu, onde desfilaram sua arte Pelé, Roberto Dias, Ademir da Guia e o próprio Sócrates, entre outros deuses da bola, um milico de alta patente proferia as besteiras típicas do discurso da época, e milicos de baixa patente distribuíam cacetadas nos juradores que praticávamos o crime de bocejar, porque ouvíamos o que ouvíamos e porque estávamos lá havia muitas horas. O Hino, é claro, engalanou a “festa”.
Quando ouvi a declaração de Sócrates, vieram-me à mente vários desses tristes episódios. É claro que não cometi o despautério doentio de ficar decepcionado com o “Doutor” ou de julgá-lo alienado, o que muitos xiitas devem ter feito. O hino, afinal, é uma das carteiras de identidade de um povo, é um de seus símbolos. Conquanto não morra de amores por símbolos, muito menos pela tosca idéia de patriotismo que ainda grassa no Brasil (prefiro o que diz Vinicius em seu antológico poema “Pátria Minha”), entendo o que sentiu Sócrates. Entendo porque também me emociono quando, em certos momentos de nossa história, o povo se põe a cantar o Hino. É um grito pela busca de uma pátria que, na verdade, não temos ou não é nossa (“Por que te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho pátria...”, diz o texto de Vinicius).
A idéia de trocar duas palavras sobre o Hino Nacional Brasileiro surgiu da quase promessa presente nas últimas linhas do texto anterior, em que comentei a ordem das palavras e das orações como elemento que pode comprometer a compreensão dos enunciados. Vamos, pois, à parte suja da nossa conversa. De início, é preciso deixar claro que não há acento grave no “as” de “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas...”. Por dois motivos: porque não há mesmo (assim está na lei que torna oficial a letra do Hino) e porque com ele o agente de “ouviram” seria indeterminado, interpretação que perde força quando se analisa o contexto. Posta na ordem direta, a primeira oração da letra oficial do Hino se transforma em “As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heróico”. Sim, foram elas, margens, que, metagogicamente (sim, metagogicamente), ouviram o brado retumbante de um povo heróico. A metagoge é um dos nomes que se dão à atribuição de características humanas ao que não é humano. Os outros nomes são “prosopopéia” e “personificação”.
Sobre essa questão, convém citar o que ocorre em uma das versões eletrônicas do “Aurélio”, anterior à lançada em 1999 (“Novo Aurélio Século XXI”). O dicionário dá justamente a primeira oração do Hino Nacional como exemplo de “anástrofe”, figura de sintaxe que define como “inversão, mais ou menos forte, da ordem natural das palavras ou das orações”. Nessa versão, o bendito “as” aparece no exemplo com acento grave, mas a alegria dos que insistem em achar que esse “as” tem mesmo o sinal diacrítico acaba em seguida, quando o próprio dicionário se encarrega de reescrever o trecho na ordem direta: “As margens plácidas do Ipiranga ouviram...”.
Ora, se o “as” tivesse acento grave, a expressão “às margens plácidas do Ipiranga” não iniciaria a ordem direta; encerrá-la-ia (“Ouviram o brado retumbante de um povo heróico às margens plácidas do Ipiranga”). No verbete “anástrofe” do “Novo Aurélio Século XXI” (versão de papel), o exemplo é o mesmo, mas o descompasso foi eliminado. O “as” aparece sem acento, na ordem indireta e na direta.
A letra do Hino Nacional é repleta de inversões. Desmontar as orações e reconstruí-las pode ser um belo exercício de sintaxe e de compreensão desse tipo de texto. E é bom tomar cuidado com o vocabulário, para não achar, por exemplo, que “garrida” tenha algo que ver com “garra”. A garra, guardemo-la para concretizar este trecho do Hino, em que, por sinal, também existe inversão: “Dos filhos deste solo és mãe gentil”. A pátria não tem sido mãe gentil de significativa parcela dos filhos de seu solo.
Até a próxima. Um forte abraço.
Pasquale Cipro Neto
fonte:http://tosabendomais.com.br/portal/penso-logo-escrevo.php?pagina=Materia&idMateria=7&acao=Ver acesso em 09/04/2012 às 22h25
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